Praia dos Olhos de Água


A Praia dos Olhos de Água deve o seu nome à existência de “olhos de água doce”, os quais correspondem a nascentes naturais de água doce. Esta praia, tal como outras em Albufeira, trata-se de uma praia rochosa, apresentado um areal relativamente pequeno. Para além de ser uma boa opção para a actividade balnear, esta praia oferece excelentes condições para a realização de actividades pedagógicas com os diferentes níveis de ensino. Nas Actividades (Ver: Olhos D’Água) do Explora Albufeira podem ser encontrados Guias de Actividades que servem de instrumentos de exploração desta praia.


A PRAIA

A Geologia da Praia

A Praia dos Olhos de Água é uma praia essencialmente rochosa com um areal relativamente pequeno e com arribas rochosas. Apesar de todas as rochas desta praia pertencerem ao grupo das rochas sedimentares, estas apresentam algumas diferenças, umas são constituídas por sedimentos finos outras por sedimentos mais grosseiros, nalgumas são visíveis fósseis noutras, ainda, encontram-se pistas de antigos organismos. Com um olho atento aos pormenores estamos perante um livro aberto pronto para nos contar uma história. Nas arribas (Fig. 1) é possível observar na sua base um arenito carbonatado um pouco bioclástico (biocalcoarenito). Nessas rochas destacam-se alguns níveis onde se observam estruturas sedimentares curiosas e que, em alguns casos, a origem é discutível (Fig. 2) – estratificação oblíqua, possíveis paleocanais de maré, laminação convoluta, figuras de escorregamento e prováveis figuras de escape e de carga.


Figura 1 – Aspecto da arriba Este da Praia dos Olhos de Água, sendo possível
observar alguns dos tipos de rochas ali existentes.



Figura 2 – Aspecto das estruturas sedimentares preservadas nos arenitos
carbonatados.


Em termos de fósseis, menos abundantes do que nas rochas a oeste da Praia dos Olhos de Água, destacam-se, por exemplo, os fósseis de ouriços-do-mar, de ostras, gastrópodes e bivalves. São comuns também pistas de antigos organismos (bioturbação) que viviam nos sedimentos antes de serem transformados em rocha.

No interior dessas pistas, que formam tubos sub-horizontais e entrecruzados, é possível observar arenitos bioclásticos com fósseis de bivalves e gastrópodes. O topo destas rochas é marcado por uma superfície irregular resultante de erosão por dissolução das rochas pelas águas da chuva (carsificação) – o que significa que após a formação da rocha (ambiente marinho litoral) esta foi sujeita a processos de carsificação. As camadas destes arenitos carbonatados bioclásticos estão a inclinar para oriente e acabam por desaparecer debaixo das areias de praia actuais.

Sobre a superfície carsificada dos arenitos carbonatados encontram-se arenitos amarelo-alaranjadas com níveis intercalados de seixos rolados maioritariamente de quartzo. Para o topo surgem areias médias a grosseiras de cor esbranquiçada a vermelha também intercaladas com níveis de seixos bem rolados (Areias e cascalheiras de Faro-Quarteira). São estas rochas que constituem no essencial as arribas da chamada Praia da Falésia.

O nome da praia está relacionado com o fenómeno geológico de nascentes de água doce. As águas da chuva e das linhas de água infiltram-se a montante (a norte da Praia dos Olhos de Água) através das rochas, circulando subterraneamente, de norte para sul, até ao litoral. Quando a água chega ao litoral acaba por aflorar, formando os conhecidos e curiosos “olhos de água” (Fig. 3). Na praia, estes “olhos” são mais visíveis durante a maré baixa.


Figura 3 – Aspecto dos “Olhos de Água” (nascentes naturais de água doce).


Distribuição dos Seres Vivos


Substrato Arenoso

Na parte arenosa da Praia verifica-se a colonização da superfície e em profundidade; os animais enterram-se no sedimento o que faz diminuir a competição e facilita a fuga aos predadores (ex: sifões e bivalves).

Substrato Rochoso


A acção contínua do mar sobre a rocha tem vindo a alterá-la com o passar do tempo. Actualmente existe uma zona mais ou menos plana que fica a descoberto com a maré baixa – plataforma de abrasão, nesta encontram-se inúmeras cavidades que servem de habitat a diferentes organismos. A tolerância às diferenças de salinidade, temperatura, concentração de oxigénio e outros factores abióticos condicionam a distribuição dos organismos.

Nas poças pequenas de revestimento escuro existe maior absorção da radiação solar e a temperatura pode atingir 30ºC. Fora de água (fora das poças) a temperatura corresponde à temperatura do ar o que implica que existam variações com maior amplitude.

Quando a maré sobe a temperatura da água do mar é diferente da temperatura da água das poças e das áreas fora de água ocorrendo um choque térmico.

Quanto à salinidade, no Verão as temperaturas são elevadas, dá-se a evaporação de água, o que leva a uma maior concentração de sais, o que implica que os seres vivos suportem grandes variações de salinidade (seres vivos euri-halinos).

Para além da variação da temperatura e salinidade, o oxigénio é outro parâmetro que sofre variações. Este é produzido a partir da actividade fotossintética das algas e fitoplâncton. Durante a noite e em dias muito encobertos dá-se uma descida dos níveis de oxigénio, por vezes abaixo do ponto de saturação. Durante um dia de sol descoberto o teor de oxigénio pode ultrapassar 2 a 3 vezes o ponto de saturação.

O substrato rochoso permite a fixação de muitos seres vivos. As condições físico-químicas (humidade, salinidade, luz, temperatura,…) existentes determinam a presença ou ausência de determinadas espécies. De acordo com a distribuição dos seres vivos, pode-se dividir as praias em várias zonas, em direcção ao mar – supralitoral, mediolitoral e sublitoral (Fig. 4). A zonação em praias rochosas ocorre, essencialmente, devido à subida e descida das marés, às características que os vários seres vivos possuem para resistir aos factores abióticos e às relações entre eles – competição e predação, principalmente.

A zona supralitoral (zona intertidal superior) encontra-se entre o domínio terrestre e o nível máximo atingido pelas marés altas de águas vivas. Nesta zona encontram-se os primeiros povoamentos marinhos sobre o substrato rochoso logo a seguir ao domínio terrestre, sendo uma zona apenas sujeita a salpicos de água provenientes das ondas e raramente coberta de água. É caracterizada pela existência de um pequeno molusco gastrópode – Littorina neritoides – e um crustáceo – Ligia oceanica –, que vivem sobretudo nas fissuras das rochas. Característico, também, desta zona é a presença de algas azuis microscópicas (cianofíceas) que vivem no interior da rocha, conferindo-lhe uma cor acinzentada. Esta cor acinzentada permite delimitar superiormente a zona supralitoral, estabelecendo a fronteira entre o domínio marinho e o terrestre. Pode-se, também, encontrar um líquen negro cujo aspecto lembra o alcatrão derramado sobre a rocha (Verrucaria maura).

A zona mediolitoral (zona intertidal médio ou eulitoral) é a verdadeira zona entre-marés, situando-se entre o nível máximo da maré alta de águas vivas e o nível médio da maré baixa de águas vivas. A parte superior da zona mediolitoral é caracterizada pela existência de animais, da família dos crustáceos, conhecidos como cracas (Chthamalus sp.), moluscos chamados lapas (Patella sp.), algas verdes do género Enteromorpha, algas castanhas do género Fucus, algas calcárias do género Lithophyllum e líquenes (Lichina pygmaea). Na parte mais baixa do mediolitoral existe povoamentos densos de mexilhões – Mytilus galloprovincialis. Nesta zona é comum encontrar numerosas poças de maré, as quais constituem enclaves do sublitoral no mediolitoral, dado que alguns dos seres vivos encontrados nestas poças são característicos do sublitoral, destacando-se o ouriço (Paracentrotus lividus), as anémonas-do-mar (Anemonia sulcata e Actina equina), pepinos-do-mar (Holothuria sp.). Estas poças encontram-se, geralmente, forradas pela alga calcária Lithopyllum incrustans. Em dias muito quentes, nas poças de maré, a temperatura pode atingir os 30ºC, e como a evaporação é muito elevada a salinidade pode aumentar bastante. Pelo contrário, em dias chuvosos a salinidade pode ser reduzida dada a diluição provocada pela mistura de água doce com a água salgada. Deste modo, os seres que habitam nas poças, podem ser sujeitos a grandes variações de temperatura e de salinidade.

A zona sublitoral estende-se desde o nível máximo atingido pelas marés baixas de águas vivas, ou seja, desde o limite inferior da zona mediolitoral até à profundidade de aproximadamente 300 m. Esta zona pode ser dividida em duas zonas distintas – a zona infralitoral e a zona circalitoral. A zona infralitoral vai do nível máximo atingido pelas marés baixas de águas vivas até cerca de 30 m de profundidade, profundidade esta que coincide com o limite de penetração da luz. A zona circalitoral é a mais profunda.


Figura 4 – Perfil no sector Este da Praia dos Olhos de Água, evidenciando as
zonas supralitoral, mediolitoral e sublitoral e alguns dos principais organismos

A informação apresentada foi recolhida e compilada por alunos da Turma B, do 12º ano (2010/2011) da Escola Secundária de Albufeira, supervisionados pelo Professor Francisco Lopes.